Ensaio sobre a Data da Assunção de Maria ao Céu

Pesquisando as datas dos escritos do Novo Testamento, me veio a idéia de procurar também a data na qual a Virgem Maria foi assunta ao Céu em corpo e alma: a data da Assunção de Maria ao Céu.

Cume do Monte Nebo na Jordânia - 20 de março do ano jubilar 2000. O Papa João Paulo II, na sua peregrinação a Terra Santa - Lugar da morte de Moisés.

Temos já a data litúrgica do dia 15 de agosto. Porém será que é possível determinar também o ano de sua Assunção ao Céu? Procurar a resposta a esta pergunta nos ajudará a concretizar ainda mais as datas dos escritos do Novo Testamento.

Algumas tradições judaicas falam da assunção de Moisés em um “Beijo de Deus”! Porém o livro do Deuteronômio nos diz que “Moisés morreu sobre o Monte Nebo, com a idade de cento e vinte anos; que foi sepultado e que ninguém até agora sabe onde está a sua sepultura” (Dt 34, 5-6).

Basílica da Dormição, no Monte Sião.

Quanto a Maria, depois de ter passado, segundo uma tradição, um período de sua vida em Éfeso, segundo uma outra tradição, seu último sono (dormítio) teria acontecido em Jerusalém, sobre o Monte Sião, no lugar onde se encontra hoje a Igreja da Dormição. Não longe do Monte Sião, no Vale do Cédron, encontra-se o Túmulo da Virgem.

Que idade tinha a Virgem no momento de sua Assunção ao Céu? Será possível fixar o ano de sua Assunção ao Céu em relação aos escritos do Novo Testamento e aos acontecimentos do início do Cristianismo? Vamos tentar responder a estas perguntas apoiando-nos sobre alguns pontos de referência.

A Igreja celebra a Festa da Natividade de Nossa Senhora no dia 8 de setembro. Maria teria nascido provavelmente no ano 21 antes de Cristo. Teria dado à luz o seu Filho no ano seis antes de Cristo, quando teria entre 15 e 16 anos. Aqui, evidentemente, estamos corrigindo o calendário estabelecido por Dionísio o Pequeno.

Jesus morreu no ano 30, quando teria 36 anos. O ano 30 está bem estabelecido como sendo o ano da morte de Jesus. Jesus morreu numa sexta-feira. A Páscoa (15 de Nisan), neste ano, caía num sábado. Estas datas correspondem ao que sabemos através do Evangelho de João (Jo 19,31).

Sendo relativamente fácil estabelecer o ano do nascimento de Maria em Jerusalém ou em Séforis (dupla tradição) cerca do ano 21 antes da nossa era, é bem mais difícil, mesmo praticamente impossível, estabelecer com certeza o ano de sua Assunção ao Céu. Porém, não abandonamos nossa pesquisa, pois ela pode projetar certa luz sobre as datas dos escritos do Novo Testamento.

Ícone da Dormição (KOINESIS) de Maria, Mãe de Deus - (TÚMULO DA VIRGEM) - Vale do Cedron - Jerusalém

Tendo em conta as diferentes tradições, procuraremos apresentar duas opções como data da Assunção de Maria ao Céu.

Na Igreja da Dormição, em Jerusalém, há um belo ícone que representa o último sono de Maria. Enquanto sua alma, como uma criancinha, é recebida nos braços de Jesus, seu corpo repousa no meio dos Apóstolos. Estamos muito provavelmente depois do ano 42. Os Apóstolos voltaram a Jerusalém para este último repouso da Virgem. Sobre este ícone podemos constatar a presença de dez Apóstolos. Falta Tiago Maior, o Irmão de João, pois ele foi martirizado no ano 42, ele, o primeiro entre os Apóstolos a beber o Cálice do Senhor. É, pois, da Jerusalém celeste que Tiago assistirá à Assunção de Maria ao Céu. Sobre este ícone, falta também Tomé, que, segundo uns escritos apócrifos, teria chegado atrasado para assistir ao último repouso da Virgem. Tomé teria, porém, descido ao Vale do Cédron onde teria constatado que o corpo de Maria não estava no túmulo. O túmulo de Maria, como o de Jesus, permanece vazio. Jesus e Maria estão ressuscitados.

Será no ano 49 ou antes do ano 49 (ano do Concílio de Jerusalém), que devemos colocar a ressurreição de Maria? No ano 49, Maria teria 70 anos. Sabemos que João participou do Concílio de Jerusalém com Tiago, o Irmão do Senhor, e Pedro (Cefas) (Cf. Gal 2, 9). Se Maria foi elevada ao Céu no ano 49, Ela teria acompanhado durante 19 anos o crescimento da Igreja depois da morte de Jesus. É uma primeira opção que tem certamente o seu valor, pois em nossa pesquisa não há textos indiscutíveis, mas somente tradições.

Numa segunda opção levaremos em conta as datas da redação do Evangelho de Lucas, particularmente o Evangelho da Infância. Podemos supor, sem poder prová-lo, que Lucas encontrou a Virgem em Éfeso durante os oitos anos passados em Filipos. Uma tradição reconhece Lucas como o pintor (iconógrafo) da Virgem Maria. Quando Lucas teria “escrito” o ícone da Virgem, feito o retrato de Nossa Senhora? Podemos pensar que quando ele se encontrava em Filipos, na Macedônia, e Maria estava em Éfeso, Lucas teria ido visita-la em Éfeso. Filipos e Éfeso, por via marítima, são próximos. Somente alguns dias de viagem. Em todo caso, é de boa informação que Lucas escreveu seu Evangelho da Infância (Lc 1,5 – 2,52) e fez o retrato de Nossa Senhora. Aqui, estamos entre os anos 50 e 58 (Cf. Datas dos escritos do Novo Testamento, La Terre Sainte, Jerusalém, pp. 179-180, Julho-Agosto 1999).

Na sua liturgia, na festa da Assunção, a Igreja nos apresenta um trecho do Apocalipse de São João (Ap 11,19ª; 12,1.3-6ª.10ab). Esta passagem fala duma “Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,l). A perspectiva não é a da Mãe de Jesus como no Evangelho da Infância; não é também da Mulher das Bodas de Caná, como no início da vida pública de Jesus (Jo 2,1-12); não é tão pouco a Mulher ao pé da Cruz (Jo 19,25-27). A perspectiva é a duma Mulher Celeste, uma Mulher arrebatada ao Céu. Esta leitura, que é escolhida para a Festa da Assunção de Nossa Senhora, nos colocaria entre os anos 68 e 70, exatamente no tempo em que São João poderia ter redigido o Apocalipse. Nesse tempo, Maria já teria sido assunta em corpo e alma à Glória do Céu.

No Vale do Cedron, a Igreja subterrânea do Túmulo da Virgem Maria - No século V uma igreja achava-se neste lugar. Foi destruída pelos persas em 614 e reconstruída pelos Cruzados.

Se esta Assunção, como nos diz outra tradição, teve lugar em Jerusalém, podemos sugerir como hipótese final, para a dormição de Maria, o ano 65. Estamos um pouco antes da revolta judaica (66-70). João e Maria teriam, por uma última vez, voltado a Jerusalém. É então que Maria teria adormecido no seu último sono no Monte Sião, teria sido sepultada no Vale do Cédron, para de lá ser levada ao Céu. João, depois da Assunção de Maria, teria voltado a Éfeso. As grandes perseguições tinham começado com o incêndio de Roma (na noite do 18-19 de julho de 64). No ano 68, deu-se a morte de Nero. João é exilado na Ilha de Patmos. É de lá que escreve o Apocalipse que leva o seu nome.

O mistério pascal de Jesus se prolonga na Igreja. A Igreja é apresentada como a “Mulher grávida, que grita entre as dores do parto, atormentada para dar a luz” (Ap 12,2). João, nos últimos capítulos do Apocalipse, não faz alusão à destruição do Templo de Jerusalém. Ele apresenta a Igreja como a Esposa do Cordeiro que vai ao encontro do seu Esposo (Apocalipse, capítulos 21 e 22).

Podemos retomar esta segunda opção, esta segunda data, do ano 65, tentando concretizar a partir do título da revista franciscana “A Terra Santa” de julho-agosto de 1999: “Num belo céu de verão, a Assunção de Maria”:

No dia 15 do mês de agosto (data litúrgica), a Virgem Imaculada, Maria, Mãe de Jesus, foi elevada ao Céu, em corpo e alma, com a idade de 86 anos, em um Beijo de Deus. Como Jesus, na Páscoa do ano 30, com a idade de 36 anos, foi arrebatado ao Céu, em corpo e alma, em um Beijo de Deus. (Lucas fala do arrebatamento de Jesus, da analempsis de Jesus no seu Evangelho e nos Atos dos Apóstolos, como Elias tinha sido arrebatado ao Céu num carro de fogo. Para Lucas, Jesus é o Novo Elias).

Representação da Virgem Maria que se encontra na Capela de Casa Nova de Nazaré. A imagem tem em conta os traços que caracterizam a beleza feminina em Nazaré. É esta Senhora que a gente poderia ter encontrado em Belém, Éfeso e Jerusalém.

Jesus e Maria são as primícias de todos os eleitos que devem também ressuscitar dos mortos, que devem também ser arrebatados ao Céu em um Beijo de Deus. Então, no fim dos tempos, Moisés, com todos os eleitos, será também arrebatado ao Céu em um Beijo de Deus, por ocasião da volta do Senhor Ressuscitado.

Os primeiros cristãos viviam desta esperança da volta do Senhor Jesus. No ano 50, Paulo pregava esta esperança na cidade de Tessalônica. Esta pregação de Paulo chegou até nós particularmente através das suas cartas aos Tessalonicenses (1Ts e 2Ts).

Que Israel, proclamando a Assunção de Moisés ao Céu em um Beijo de Deus, possa também reconhecer o amor de Deus, não somente para com Moisés, mas também para com uma Filha de Sião, a Mãe de Jesus, assunta ao Céu em um Beijo de Deus. Crendo neste amor de Deus para com Maria, para com Moisés e para com todos os homens, podemos pedir a Deus que sejam destruídos os muros de separação que se levantam entre os povos e que sejamos reunidos neste Beijo de Deus, que é a manifestação da Agape e do Eros de Deus. Bento XVI, na sua carta encíclica “Deus Caritas Est”, nos falou oportunamente desta Agape e deste Eros que no amor infinito de Deus se identificam.

O autor, no Monte das Bem-Aventuranças, junto ao lago de Tiberíades.

Papirologia e Datas dos Escritos do Novo Testamento

O papirólogo Carsten Peter Thiede e o jornalista Matthew D´Ancona publicaram o livro: “Testemunha Ocular de Jesus, Novas Provas em Manuscritos sobre a Origem dos Evangelhos” (1).Se, como mostra a papirologia, o Evangelho de Marcos foi escrito antes do ano 50 e o Evangelho de Mateus pelo ano 60, é extremamente interessante procurar encontrar nos próprios textos do Novo Testamento indícios que possibilitem confirmar estas descobertas da papirologia e estabelecer novas datas para os escritos do Novo Testamento.Atualmente essas descobertas já não fazem parte do campo das hipóteses, mas das verdades cientificamente provadas. Segundo um cálculo das probabilidades realizado pelo professor Dou, não existe praticamente outras possibilidades que a da identificação de 7Q5 (foto superior à esquerda) com um fragmento de Mc 6,52-53 (2).Na revista “Terra Santa” (3), no que concerne à dupla obra de Lucas, Evangelho e Atos dos Apóstolos, partimos da seguinte hipótese: Lucas escreveu seu Evangelho em Filipos, na Macedônia, durante a segunda e a terceira viagens missionárias do Apóstolo Paulo, entre os anos de 50 e 58. Lucas terminou de escrever os Atos dos Apóstolos em Roma, no ano 63.

Viagens de São Paulo. Destacar as cidades de Filipos, Éfeso, Roma e Jerusalém.
Com efeito, considerando-se, nos Atos dos Apóstolos, as passagens nas quais Lucas emprega a primeira pessoa do plural (as passagens em “nós” – chamadas Wirstüke, em alemão), é possível constatar que este evangelista e autor dos Atos dos Apóstolos chegou com Paulo em Filipos, na Macedônia, no ano 50 (cf. Atos 15,10), e que ali permaneceu até o ano 58. Com efeito, foi sem a companhia de Lucas que Paulo prosseguiu sua viagem em companhia de Timóteo e de Silas. Paulo evangelizaria Tessalônica, Atenas e Corinto. A Primeira Carta aos Tessalonicenses (1Tes) foi escrita de Corinto, no fim do ano 50 (4).É somente no fim da terceira viagem missionária, no ano 58, que Lucas deixará definitivamente Filipos. Com outros delegados, ele tem o encargo de levar a Jerusalém o fruto da coleta organizada entre a gentilidade em benefício da Igreja-Mãe de Jerusalém (At. 20,5-6).A Segunda Carta aos Coríntios (em um bilhete inserido na carta) fala desta coleta e do “irmão” “delegado” do qual “todas as Igrejas cantam o louvor com relação ao Evangelho” (cf. 2Cor. 8,18-20). Em Paulo, o Evangelho (to euanggélion) não designa ordinariamente um evangelho escrito, mas a pregação cristã. Contudo, nesta passagem a palavra parece conotar mais do que a simples pregação cristã, mas já um escrito, no caso, o Evangelho de Lucas, lido em todas as Igrejas. Sublinho “todas”, pois somente estando ele escrito é que a louvação a este Evangelho podia ser tão universal. Parece-me que apenas Lucas pode ser este companheiro muito especial, que é também chamado “irmão”, no fim dos versículos citados (v. 22) (5).Lucas, tendo terminado de escrever seu Evangelho antes do ano 58, em Filipos, como supomos, pôde também terminar de escrever os Atos dos Apóstolos em Roma, antes do fim dos dois anos de cativeiro do Apóstolo Paulo (ano 63).Quanto ao Evangelho de Marcos, é bastante fácil de perceber, também nos Atos dos Apóstolos, o momento mais provável da sua composição. O jovem Marcos não acompanha Paulo à Panfília e à Pisídia, por ocasião da primeira viagem missionária. Ele volta à casa de sua mãe, em Jerusalém (cf. At 12,12; 13,13 e 15,38). Seria preciso muita coragem para acompanhar Paulo nas montanhas de Taurus (Turquia atual). Havia 160 km. a percorrer para chegar a Antioquia da Pisídia. Seria necessário enfrentar perigos muito grandes. Lembrando-se, mais tarde, do que tivera de enfrentar por causa do Evangelho, Paulo se referirá a esses grandes perigos dos rios, perigos de bandidos (2Cor 11,26). A primeira viagem missionária data do ano 46. Seria naquele ano, depois de uma breve visita à sua mãe, em Jerusalém, que Marcos teria partido para Roma? Viagem fácil, de navio, no verão, pelo Mediterrâneo. Assim Marcos teria podido escrever a catequese de Pedro em Roma, antes do Concílio de Jerusalém, ou seja, entre os anos 46 e 49. É possível também que ele tenha chegado a Roma antes, isto é, já no ano 42, depois da libertação milagrosa de Pedro. Está dito em Atos 12, 17, que “Pedro saiu e foi para um outro lugar” (éteron tópon). De dois lugares (éteron), o outro lugar, que não Jerusalém, seria Roma. Teria sido já no ano 42 que Marcos teria ido juntar-se a Pedro em Roma? Em todo caso, a tradição nos diz que Marcos escreveu a catequese de Pedro em Roma (Papias).Outros exegetas (Carmignac e Tresmontant) descobrem nos Evangelhos um substrato hebraico. Isto não surpreende, pois os Apóstolos permaneceram doze anos em Jerusalém, após a morte de Jesus, antes de precisarem se dispersar, para fugir, como Pedro, à perseguição de Herodes Agripa I (ano 42). Assim, é possível, e mesmo provável, que antes desta dispersão, Marcos, Mateus e João tenham escrito já uma parte dos seus evangelhos em hebraico, donde esses “hyperétai”, “ministros da palavra” mencionados por Lucas (1,1-2). Thiede fala também de Mateus como estenógrafo. Mateus, como escriba hábil, teria apanhado em ditado, no momento em que foram pronunciadas pela própria boca de Jesus, as palavras do Sermão da Montanha (6).Relendo os escritos do Novo Testamento, particularmente os Atos dos Apóstolos, penso que é permitido lembrar a posição de J.A.T. Robinson que, em 1976, afirmou não ser absurdo pensar que todos os escritos do Novo Testamento teriam sido redigidos antes do ano 70, data da destruição do Templo de Jerusalém. Não há nesses escritos indícios desta imensa catástrofe. Jesus predisse a destruição de Jerusalém da mesma maneira que o profeta Jeremias tinha predito sua destruição no tempo do rei Joaquim, antes que esta se realizasse, em 9 do Mês d´Av (agosto) do ano 587. As palavras de Jesus, repetidas por Lucas, são uma profecia, e não a descrição do acontecimento, como fará mais tarde o historiador Flávio Josefo. Vejamos essas palavras de Jesus referidas por Lucas:“E, como estivesse perto, viu a cidade e chorou sobre ela, dizendo: ‘Ah! Se neste dia também tu conhecesses a mensagem de paz! Mas não, isto está oculto aos teus olhos. Sim, dias virão sobre ti em que teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão, te apertarão de todos os lados. Eles te esmagarão a ti e a teus filhos dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada!’ ” (Lc 19,41-44).Nestas palavras não há uma descrição concreta, como aquela que seria feita depois da destruição do templo, no ano 70. O texto é um conjunto de reminiscências bíblicas que evocam a destruição de Jerusalém no ano 587. “Lucas, relatando a destruição de Jerusalém, não menciona o sinal mais característico deste acontecimento, que é a destruição do Templo. Essa destruição foi o maior choque para o judaísmo. Um autor que tivesse vivenciado este choque não poderia transformar a destruição do Templo em uma devastação da cidade de Jerusalém” (7).Voltamos a esta afirmação de Robinson, de que todos os escritos do Novo Testamento foram redigidos antes do ano 70. Esta tese, que parecia pouco “ortodoxa” a muitos exegetas há algum tempo, e que assim parece a muitos deles, ainda hoje, é verdadeira pelo menos para a maior parte dos escritos do Novo Testamento, particularmente para os livros de Mateus e de Marcos (cf. Thiede e a papirologia), a dupla obra de Lucas (Evangelho e Atos). Prosseguindo nosso trabalho, apresentaremos brevemente os outros escritos do Novo Testamento.Para as 13 Epístolas de São Paulo, particularmente para as Epístolas Pastorais, que são as mais discutidas, temos o simpósio internacional, na Universidade de Eichstät, na Alemanha, no mês de outubro de 1991. Este simpósio é mencionado num artigo de Dom João Evangelista Terra, S.J.: “Thiede propôs uma identificação mais espetacular ainda do fragmento maior e melhor conservado da gruta 7, o 7Q4, como um versículo da Primeira Carta de São Paulo a Timóteo (1Tm 3,16; 4,1.3). Esta identificação, que O´Callaghan já havia feito, foi então confirmada por especialistas respeitáveis, entre outros Puesch e Riesenfeld. Esta identificação de um manuscrito da Primeira Carta a Timóteo tem efeitos ainda mais explosivos. É o único papiro desta carta. O fato de este papiro datar de antes de 68 (terminus ante quem), numa época em que São Paulo vivia ainda, altera todas as teorias sobre a cronologia das cartas de São Paulo, demonstra o rápido desenvolvimento da hierarquia na Igreja de Jerusalém e pulveriza muitas especulações cerebrais com respeito às Epístolas Pastorais” (8).A Carta aos Hebreus, que muito provavelmente não foi escrita por Paulo, é, também ela, anterior à destruição do Templo de Jerusalém. O padre Albert Vanhoye, que é o grande especialista nesta Carta (à qual se refere como o Sermão Sacerdotal), constata que o autor deste Sermão se refere à liturgia do Templo como uma realidade sempre atual (Hb 10,1-3) (9). Este Sermão foi, portanto, pronunciado e escrito antes da destruição do Templo de Jerusalém.No tocante ao Evangelho de João, encontramos também indícios de uma data anterior à destruição do Templo de Jerusalém (9 do mês de Av – agosto – do ano 70) (o mesmo dia e o mesmo mês da destruição do Primeiro Templo, em 587). No capítulo 5, v. 2, João afirma “que há (éstin) (verbo no presente) em Jerusalém uma piscina cujo nome é Bethesda…”. O verbo no presente do indicativo, “há” (10), indica que a cidade de Jerusalém não tinha ainda sido destruída no momento em que João escrevia, e que a piscina de Bethesda continuava lá. É um indício de que o Evangelho de João foi escrito antes do ano 70. Por outro lado, é também provável que os vinte primeiros capítulos deste Evangelho tenham sido escritos antes do ano 64, data do martírio de Pedro em Roma. Seria somente após a morte do seu amigo Pedro que João teria acrescentado o capítulo 21 do seu Evangelho. O martírio de Pedro teria suscitado na memória de João a lembrança desta maravilhosa manifestação do Senhor Ressuscitado perto do Lago de Tiberíades, quando o Senhor profetizou a Pedro o que lhe aconteceria:“Em verdade, em verdade, te digo: quando eras jovem, tu te cingias e andavas por onde querias; quando fores velho, estenderás as mãos e outro te cingirá e te conduzirá aonde não queres”. Disse isso para indicar com que espécie de morte Pedro daria glória a Deus. Tendo falado assim, disse-lhe: ‘Segue-me’ ”(Jo 21,18-19).Com efeito, Pedro será crucificado em Roma, no Vaticano (Circo de Nero), no ano 64 (11). Pedro pediu o favor de ser crucificado de cabeça para baixo, por se achar indigno de ser crucificado da mesma forma que seu Mestre. Trata-se, aqui, de uma tradição atestada por Orígenes e São Jerônimo.Quanto às três cartas de São João (1Jo; 2Jo; e 3Jo), parece desnecessário datá-las de fins do século primeiro (anos 95-100), como faz a maior parte dos exegetas, talvez tomando ao pé da letra o título de “presbítero” que o Apóstolo João dá a si mesmo. Esta interpretação é desnecessária. Pedro, não sendo tão idoso, dá também a si mesmo este título de “co-presbítero” (sympresbýteros). Ele se refere, por este título, não à sua idade, mas ao seu ministério de pastor do rebanho de Deus, em união com os padres (presbíteros) (1Pd 5,1-4).Tendo sido o Evangelho de João, incluído o capítulo 21, escrito mais cedo (antes do ano 65), as três cartas de João podem também ter sido escritas mais cedo. Não sabemos exatamente as datas da permanência de João em Éfeso, na Ásia Menor. Poderia ter ido para lá logo depois da decapitação de Tiago, seu irmão (Tiago Maior), na Páscoa do ano 42; poderia ter voltado para lá depois da lapidação de Tiago, irmão do Senhor, no ano 62, visto que nesses anos de perseguições os Apóstolos devem ter se dispersado. Sabemos que durante os anos da revolta judaica (66-67), os cristãos fugiram de Jerusalém para se refugiar em Pela, na Transjordânia. Em todo caso, há uma tradição bem estabelecida da presença de Maria, a Mãe de Jesus, e de João, em Éfeso. É desta cidade que João teria escrito suas três cartas. É possível que a Primeira Carta de João (1Jo) tenha acompanhado a publicação do Quarto Evangelho, dada a proximidade literária desses dois escritos. As duas outras cartas (2Jo e 3Jo) seriam da mesma época.A Primeira Carta de Pedro (1Pd) foi escrita antes da grande perseguição na qual Pedro daria sua vida. Esta grande perseguição veio depois do incêndio de Roma (18-19 de julho do ano 64). Nero acusará os cristãos de terem incendiado a Cidade. Os cristãos servirão de bode expiatório. As perseguições contra os cristãos, na Primeira Carta de Pedro, não são aquelas que virão após o incêndio de Roma. São perseguições inerentes à existência cristã no meio do paganismo. A maneira de ser dos cristãos no meio do paganismo atraiu o ódio do mundo e todo tipo de contrariedades (1Pd 2,12; 3,13-17).A carta (1Pd) supõe também a evangelização da Ásia Menor (em torno dos anos 58-60) como realizada por Paulo. Pedro escreveu por intermédio de Silvano. Silvano (Silas) redigiu esta carta a pedido de Pedro (1Pd 5,12). Como conseqüência do que dissemos, esta carta (1Pd) não pode ser anterior ao ano 58, nem posterior a julho do ano 64.A Carta de São Tiago (Tg). Há três Tiagos, que é preciso diferenciar bem. O autor da nossa carta é Tiago Irmão do Senhor, bem diferente de Tiago, irmão de João, filho de Zebedeu, o primeiro entre os Apóstolos a beber do cálice do Senhor (decapitado por Herodes Agripa I, no ano 42). Este irmão de João é também chamado Tiago Maior. Um terceiro Tiago é Tiago filho de Alfeu, um dos Doze, dito Tiago Menor. Os irmãos do Senhor não haviam crido em Jesus quando de sua vida pública (Jo 7,5). É por uma aparição do Senhor Ressuscitado que Tiago, Irmão do Senhor, autor de nossa epístola, crerá e tornar-se-á Apóstolo (1Cor 15,5-7). Depois da partida de Pedro para Roma, este Tiago tornou-se Bispo de Jerusalém. Era um judeu-cristão piedoso. Rezava de joelhos, todos os dias, no Templo de Jerusalém. Seus joelhos tornaram-se grossos e calejados, o que lhe valeu o apelido de “Joelhos de Camelo”. Sua execução (lapidação) pelo Sumo Sacerdote Anás, no ano 62, como nos é contada pelo historiador Flávio Josefo, em suas Antiguidades Judaicas (20,197-203), revoltou muitos contemporâneos e acentuou a separação entre o Cristianismo e o Judaísmo (cf. Thiede e Matthew d´Ancona, p.p. 75-76).A carta de São Tiago, por causa de sua teologia e de sua cristologia não tão elaboradas, aparece como anterior às epístolas de São Paulo. Nesta carta não há qualquer referência à evangelização dos gentios nem ao Concílio de Jerusalém (ano 49). Sua doutrina é muito próxima do Sermão da Montanha. A data de sua composição poderia bem situar-se entre os anos 42 e 49. Nessa época, Tiago tinha já assumido, depois de Pedro, a direção da Igreja de Jerusalém.A Carta de São Judas (Jd). Judas apresenta-se a si mesmo, nesta curta epístola (ela não tem mais que um capítulo, constando de 25 versículos, ao todo), como irmão de Tiago. Portanto, Judas é também irmão do Senhor. Este parentesco lhe viria de Cléofas, irmão de José (esposo de Maria). Maria de Cléofas e Maria Salomé seriam as duas cunhadas de Maria, mãe de Jesus.Um trecho da carta de São Judas foi retomado por Pedro em sua Segunda Carta (2Pd). Não é necessário falar em pseudonímia com referência à Segunda Carta de Pedro (2Pd). Essa segunda carta foi escrita após a 1Pd, entre os anos 60 e 64. Tendo Judas feito sua carta alguns anos antes da morte (ano 62) de Tiago, seu irmão, Pedro pôde retomá-la em sua segunda carta (2Pd). Pedro sem dúvida achou a carta de Judas muito oportuna para toda a Igreja. A luta conta os falsos doutores e sua imoralidade era um assunto que concernia a todos os cristãos, a toda a Igreja Católica. Judas tinha escrito uma “Epístola Católica”! Pedro torna-a ainda mais “Católica”, se podemos falar desta maneira, ao retomá-la na sua carta (2Pd). Silvano (Silas) foi o redator da 1Pd. Um outro redator intervirá, para redigir a 2Pd e nela inserir, com algumas modificações, a carta de São Judas.Quanto ao Apocalipse de São João, não é totalmente seguro que tenha sido escrito no ano 95, no tempo do imperador Domiciano, como o afirmam quase todos os exegetas. Uma data anterior ao ano 70 nos parece mais provável. As Duas Testemunhas (as Duas Oliveiras) vestidas de saco, que profetizam durante mil duzentos e sessenta dias, poderiam ser, num discurso enigmático como o do gênero literário do Apocalipse, os Apóstolos Pedro e Paulo, martirizados em Roma, sob o imperador Nero (Ap 11,1-13). O reinado de Nero terminou no ano 68. Segundo quase todos os exegetas, é a Nero que corresponde o número 666 da Besta (Ap 13,18; 15,2). Escrito um pouco antes da destruição de Jerusalém, o Apocalipse de São João torna-se ainda mais atual. Em todo caso, no ano 70, estando Nero já morto e os Apóstolos Pedro e Paulo martirizados nos anos 64 e 67, havia já os principais acontecimentos históricos que possibilitariam a composição do livro do Apocalipse.Ao investigar novas datas para os 27 livros do Novo Testamento, constatamos que todos podem ter sido escritos cedo. Os autores destes escritos são Testemunhas Oculares (cf. o título do livro de Thiede e Matthew d´Ancona). “Aquilo que vimos com nossos olhos, aquilo que nossas mãos apalparam do Verbo da Vida, nós vo-lo anunciamos”, como escreveu João, na sua Primeira Carta (cf. 1Jo 1,1-4). Estas testemunhas oculares nos põem em contato com o Cristo, o Verbo Encarnado, um de nós por sua humanidade, e Filho de Deus, por sua divindade. O mesmo Jesus Cristo é consubstancial ao Pai, segundo a natureza divina, e consubstancial a nós, segundo a natureza humana, como dirá mais tarde o Concílio de Constantinopla (ano 451). Os Evangelhos são históricos. Nenhuma gnose. Temos aqui uma maneira de nos opormos ao “Código da Vinci” e a todos aqueles que querem deixar entender que “os escritos do Novo Testamento não são mais que abordagem distante e duvidosa da realidade histórica da vida de Jesus” (excerto de uma carta que o Pe. Albert Vanhoye, S.J., atualmente Cardeal Vanhoye, escreveu ao autor em 22 de junho de 2003). A frase completa do Pe. Vanhoye, é: “Mina-se, desta maneira, a fé dos cristãos, pretendendo-se que esses escritos do Novo Testamento não sejam mais que uma abordagem distante e duvidosa da realidade histórica da vida de Jesus”. Esta frase nos convida a refletir e a fazer nosso ato de fé, com a graça de Deus, na Verdade do Verbo Encarnado, que se prolonga nas Sagradas Escrituras.É tempo de abandonar esse pré-julgamento de que o Novo Testamento teria sido escrito muito tarde, segundo uma concepção bultmaniana que tem suas raízes na “gnose”, “no nome enganador”, como completaria Santo Irineu. Sim, tudo pode ter sido escrito cedo, como a papirologia tem demonstrado (O´Callaghan e Carsten Peter Thiede). Lendo os escritos do Novo Testamento, entramos em contato, pela fé, com o Verbo Encarnado tal como foi experimentado pelos Apóstolos, que nos transmitiram a Verdade, que é Jesus Cristo (12). O muro de separação entre o Cristo da Fé e o Jesus da História (Jesus Histórico) está ruindo.“A fé exige a realidade do acontecimento”, de Joseph Ratzinger:

“A opinião de que a fé, como tal, não conhece absolutamente nada dos fatos históricos e deve deixar tudo aos historiadores, é da gnose: esta opinião desencarna a fé e a reduz a uma simples idéia. Para a fé que se apóia na Bíblia, a realidade do acontecimento é, ao contrário, precisamente exigência constitutiva. Um Deus que não pode intervir na História nem se mostrar nela, não é o Deus da Bíblia”.

Extraído do discurso do Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, por ocasião do centenário de fundação da Pontifícia Comissão Bíblica (30 dias, no 6, 2003, p. 60), atual Papa Bento XVI.Abaixo temos as duas Cartas do Cardeal Vanhoye, S.J. ao autor.Primeira Carta do Cardeal Vanhoye, S.J. ao autor.Segunda Carta do Cardeal Vanhoye, S.J. ao autor.

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Agradeço ao Sr. Cardeal Albert Vanhoye, S.J., por me haver encorajado nesta “obra muito útil”, como ele me escreveu, “reagindo contra os excessos da exegese histórico-crítica, que na realidade se deixou levar por um apriorismo acrítico, segundo o qual convém estabelecer datas as mais tardias possíveis (e para além!) para todos os escritos do Novo Testamento” (carta de 22 de junho de 2003).Notas.

1. Carsten Peter Thiede e Matthew D´Ancona, Testemunha Ocular de Jesus, Imago, Rio de Janeiro, 1999. Tradução para o Português de Laura Rumchinsky, pp. 229. Título original: Eyewitness to Jesus, Doubleday, London, 1996. E anteriormente, Carsten P. Thiede: “Qumran e i Vangeli, I manuscriti della grotta 7 e la nascita del Nuovo Testamento”, Massimo, Milano, 1996. “Qumran e os Evangelhos, Os Manuscritos da Gruta 7 e o Nascimento do Novo Testamento”, Massimo, Milâo, 1996.

2. Numa longa e interessante entrevista do Pe. O´Callaghan a Germán Mackenzie Gonzáles, na revista “Vida y Espiritualidad”, VE, maio-agosto de 1995, ano 11, o Pe. José O´Callaghan se refere a um cálculo de probabilidade feito pelo professor Dou. A probabilidade de identificação de 7Q5 com Mc 6,52-53 é da ordem de 36 bilhões (36.000.000.000). Atualmente, os papirólogos concordam em reconhecer a descoberta de O´Callaghan, e em identificar 7Q5 com um fragmento do Evangelho de Marcos. Herbert Hunger, diretor da coleção de papiros da Biblioteca Nacional da Áustria, declara: “Não falo como teólogo nem como biblista, falo como cientista. Digo que O´Callaghan tem razão”. Um grande papirólogo, C.H. Roberts, havia já datado como do ano 50 7Q5, sem, contudo, conseguir identificá-lo.

3. Terra Santa, julho-agosto de 1999, “Datas dos Escritos do Novo Testamento”, p.p. 179-80.

4. Cronologia estabelecida a partir de uma inscrição descoberta em Delfos, que menciona a 26ª aclamação do imperador Cláudio e o procônsul Galião. Ela corresponde ao comparecimento de Paulo diante do procônsul Galião em Corinto, na primavera do ano 52. Paulo permaneceu um ano e seis meses em Corinto (cf. At 18,11-18 e o Pe. Stanislas Lyonnet, S.J., Annotationes in priorem epistolam ad Corínthios, Pontificium Institutum Biblicum, Romae, 1965-1966, p. 5. (Anotações sobre a Primeira Carta aos Coríntios. Pontifício Instituto Bíblico, Roma, 1965-1966, p. 5).

5. A Bíblia de Jerusalém, numa nota de rodapé escreveu “talvez Lucas”, como companheiro de Paulo, quando se trata quase com certeza de Lucas. Foi ele quem acompanhou Paulo, quando este entrou na Europa por ocasião da segunda viagem missionária, e quem o acompanharia até o fim da terceira viagem. É quase impossível encontrar um outro companheiro que esteja ligado assim ao evangelho anunciado (ou já escrito?).
Um contato literário entre Lc 10,40 e 1Cor 7,35, poderia ser um indício favorável à redação do Evangelho de Lucas antes da festa da Páscoa do ano 57 (data da 1Cor). Paulo descreve a virgem como aquela que “permanece junto ao Senhor sem distrações” (aperispástôs), retomando o vocabulário de Lucas, que apresenta Marta como aquela que está distraída (periespãto) por muitos serviços (Lc 10,40). Cf. Stanislas Lyonnet, S.J., Annotaniones in priorem epistolam ad Corinthios, p. 164.
Como transparece na carta de Paulo aos Filipenses (Fl), há uma grande amizade entre Paulo e a comunidade de Filipos. Por trás desta amizade, é quase certo estar esse irmão-companheiro que acompanhava Paulo quando este chegou a Filipos com Timóteo e Silas, no ano 50. Há também Lídia, em Filipos. esta Lídia que “obrigou os missionários a permanecer em sua casa” (cf. At 16,15).
Na carta aos Filipenses (Fl 4,2-3), encontramos ainda um outro indício da permanência de Lucas nesta Igreja de Filipos. Paulo exorta Evódia e Síntique “a viver em boa inteligência no Senhor”. E acrescenta: “e a ti, Sínzigo, fiel ‘companheiro’, peço-te que lhes prestes auxílio”. Os comentários bíblicos dão a etimologia desses nomes: Evódia (bom caminho); Síntique (encontro); Sínzigo (sob o mesmo jugo, colega, companheiro). A TOB observa que “Paulo parece sublinhar com um sorriso o contraste entre os nomes Evódia e Síntique e sua conduta”, mas ignora tudo sobre as pessoas citadas nos versículos 2 e 3. Contudo, no contexto de nosso trabalho, é provável que Sínzigo seja Lucas, o fiel ‘companheiro’ de Paulo, verdadeiro amigo de Paulo, e que recebe este apelido que o caracteriza, apelido que toda a comunidade de Filipos podia decifrar facilmente, se é que Lucas já não era conhecido por esta alcunha familiar e afetuosa. É bom lembrar toda a delicadeza que Lucas manifesta com relação às mulheres, o que transparece particularmente no seu Evangelho. Paulo soube valorizar aqui, este carisma de Lucas, para a reconciliação daquelas duas mulheres.
Para as novas traduções e comentários do Novo Testamento, é lícito esperar que estas datas dos escritos do Novo Testamento sejam revistas a partir dos progressos da papirologia. Por que pensar que Lucas, que sofreu com Paulo o naufrágio na Ilha de Malta, iria publicar os Atos somente 20 ou 30 anos mais tarde, relatando em detalhes o que havia ocorrido? Não existe jornalista com esta maneira de proceder.

6. Terra, D. João Evangelista, S.J.: “Papiro 7Q5 de Qumran e a Nova Datação dos Evangelhos, Atualização, Belo Horizonte, No 265, jan./fev. 1997.

7. Hans-Joachim Schulz, Die Apostoliche Herkunft, Questiones Disputatae, 1993. Citação de D. João Evangelista Terra, S.J., op. cit., pp 20-21.

8. D. João Evangelista Terra se refere a este simpósio internacional de Eichstätt de 1991, op. cit. p.p. 10-11. Os atos foram publicados por B. Mayer (org). Christentum und Christlichen in Qumran? Eischsttäter Studien 32, Regensburg, 1992.

9. Introdução à Epístola aos Hebreus, TOB, p. 671. O Pe. Albert Vanhoye traduziu e fez as notas de Hebreus para a TOB. Recomendamos, do mesmo autor, o estudo: “A Mensagem da Epístola aos Hebreus”, Ed. Paulinas, São Paulo, 1983., Coleção Cadernos Bíblicos, pp. 85. Este livro é um resumo da tese de doutorado do Pe. Vanhoye. Infelizmente a edição brasileira está esgotada

10. A Bíblia de Jerusalém e a TOB traduzem corretamente: “existe”, enquanto que a Bíblia do Peregrino (em Português, no Brasil) põe, por um erro, o verbo no imperfeito: “havia en Jerusalém”. O texto original espanhol está no presente: “hay em Jerusalén” (“há em Jerusalém”).

11. Um artigo da revista 30 Dias, baseado em livros apócrifos, situa no ano 64 o martírio de Pedro em Roma. Paulo, sendo cidadão romano, seria martirizado um pouco mais tarde, ou seja, no ano 67.

12. Dei Verbum, no 19. Paulo VI interveio no Concílio, para afirmar, sem hesitação, a historicidade dos quatro Evangelhos.