Ensaio sobre a Data da Assunção de Maria ao Céu

Pesquisando as datas dos escritos do Novo Testamento, me veio a idéia de procurar também a data na qual a Virgem Maria foi assunta ao Céu em corpo e alma: a data da Assunção de Maria ao Céu.

Cume do Monte Nebo na Jordânia - 20 de março do ano jubilar 2000. O Papa João Paulo II, na sua peregrinação a Terra Santa - Lugar da morte de Moisés.

Temos já a data litúrgica do dia 15 de agosto. Porém será que é possível determinar também o ano de sua Assunção ao Céu? Procurar a resposta a esta pergunta nos ajudará a concretizar ainda mais as datas dos escritos do Novo Testamento.

Algumas tradições judaicas falam da assunção de Moisés em um “Beijo de Deus”! Porém o livro do Deuteronômio nos diz que “Moisés morreu sobre o Monte Nebo, com a idade de cento e vinte anos; que foi sepultado e que ninguém até agora sabe onde está a sua sepultura” (Dt 34, 5-6).

Basílica da Dormição, no Monte Sião.

Quanto a Maria, depois de ter passado, segundo uma tradição, um período de sua vida em Éfeso, segundo uma outra tradição, seu último sono (dormítio) teria acontecido em Jerusalém, sobre o Monte Sião, no lugar onde se encontra hoje a Igreja da Dormição. Não longe do Monte Sião, no Vale do Cédron, encontra-se o Túmulo da Virgem.

Que idade tinha a Virgem no momento de sua Assunção ao Céu? Será possível fixar o ano de sua Assunção ao Céu em relação aos escritos do Novo Testamento e aos acontecimentos do início do Cristianismo? Vamos tentar responder a estas perguntas apoiando-nos sobre alguns pontos de referência.

A Igreja celebra a Festa da Natividade de Nossa Senhora no dia 8 de setembro. Maria teria nascido provavelmente no ano 21 antes de Cristo. Teria dado à luz o seu Filho no ano seis antes de Cristo, quando teria entre 15 e 16 anos. Aqui, evidentemente, estamos corrigindo o calendário estabelecido por Dionísio o Pequeno.

Jesus morreu no ano 30, quando teria 36 anos. O ano 30 está bem estabelecido como sendo o ano da morte de Jesus. Jesus morreu numa sexta-feira. A Páscoa (15 de Nisan), neste ano, caía num sábado. Estas datas correspondem ao que sabemos através do Evangelho de João (Jo 19,31).

Sendo relativamente fácil estabelecer o ano do nascimento de Maria em Jerusalém ou em Séforis (dupla tradição) cerca do ano 21 antes da nossa era, é bem mais difícil, mesmo praticamente impossível, estabelecer com certeza o ano de sua Assunção ao Céu. Porém, não abandonamos nossa pesquisa, pois ela pode projetar certa luz sobre as datas dos escritos do Novo Testamento.

Ícone da Dormição (KOINESIS) de Maria, Mãe de Deus - (TÚMULO DA VIRGEM) - Vale do Cedron - Jerusalém

Tendo em conta as diferentes tradições, procuraremos apresentar duas opções como data da Assunção de Maria ao Céu.

Na Igreja da Dormição, em Jerusalém, há um belo ícone que representa o último sono de Maria. Enquanto sua alma, como uma criancinha, é recebida nos braços de Jesus, seu corpo repousa no meio dos Apóstolos. Estamos muito provavelmente depois do ano 42. Os Apóstolos voltaram a Jerusalém para este último repouso da Virgem. Sobre este ícone podemos constatar a presença de dez Apóstolos. Falta Tiago Maior, o Irmão de João, pois ele foi martirizado no ano 42, ele, o primeiro entre os Apóstolos a beber o Cálice do Senhor. É, pois, da Jerusalém celeste que Tiago assistirá à Assunção de Maria ao Céu. Sobre este ícone, falta também Tomé, que, segundo uns escritos apócrifos, teria chegado atrasado para assistir ao último repouso da Virgem. Tomé teria, porém, descido ao Vale do Cédron onde teria constatado que o corpo de Maria não estava no túmulo. O túmulo de Maria, como o de Jesus, permanece vazio. Jesus e Maria estão ressuscitados.

Será no ano 49 ou antes do ano 49 (ano do Concílio de Jerusalém), que devemos colocar a ressurreição de Maria? No ano 49, Maria teria 70 anos. Sabemos que João participou do Concílio de Jerusalém com Tiago, o Irmão do Senhor, e Pedro (Cefas) (Cf. Gal 2, 9). Se Maria foi elevada ao Céu no ano 49, Ela teria acompanhado durante 19 anos o crescimento da Igreja depois da morte de Jesus. É uma primeira opção que tem certamente o seu valor, pois em nossa pesquisa não há textos indiscutíveis, mas somente tradições.

Numa segunda opção levaremos em conta as datas da redação do Evangelho de Lucas, particularmente o Evangelho da Infância. Podemos supor, sem poder prová-lo, que Lucas encontrou a Virgem em Éfeso durante os oitos anos passados em Filipos. Uma tradição reconhece Lucas como o pintor (iconógrafo) da Virgem Maria. Quando Lucas teria “escrito” o ícone da Virgem, feito o retrato de Nossa Senhora? Podemos pensar que quando ele se encontrava em Filipos, na Macedônia, e Maria estava em Éfeso, Lucas teria ido visita-la em Éfeso. Filipos e Éfeso, por via marítima, são próximos. Somente alguns dias de viagem. Em todo caso, é de boa informação que Lucas escreveu seu Evangelho da Infância (Lc 1,5 – 2,52) e fez o retrato de Nossa Senhora. Aqui, estamos entre os anos 50 e 58 (Cf. Datas dos escritos do Novo Testamento, La Terre Sainte, Jerusalém, pp. 179-180, Julho-Agosto 1999).

Na sua liturgia, na festa da Assunção, a Igreja nos apresenta um trecho do Apocalipse de São João (Ap 11,19ª; 12,1.3-6ª.10ab). Esta passagem fala duma “Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas” (Ap 12,l). A perspectiva não é a da Mãe de Jesus como no Evangelho da Infância; não é também da Mulher das Bodas de Caná, como no início da vida pública de Jesus (Jo 2,1-12); não é tão pouco a Mulher ao pé da Cruz (Jo 19,25-27). A perspectiva é a duma Mulher Celeste, uma Mulher arrebatada ao Céu. Esta leitura, que é escolhida para a Festa da Assunção de Nossa Senhora, nos colocaria entre os anos 68 e 70, exatamente no tempo em que São João poderia ter redigido o Apocalipse. Nesse tempo, Maria já teria sido assunta em corpo e alma à Glória do Céu.

No Vale do Cedron, a Igreja subterrânea do Túmulo da Virgem Maria - No século V uma igreja achava-se neste lugar. Foi destruída pelos persas em 614 e reconstruída pelos Cruzados.

Se esta Assunção, como nos diz outra tradição, teve lugar em Jerusalém, podemos sugerir como hipótese final, para a dormição de Maria, o ano 65. Estamos um pouco antes da revolta judaica (66-70). João e Maria teriam, por uma última vez, voltado a Jerusalém. É então que Maria teria adormecido no seu último sono no Monte Sião, teria sido sepultada no Vale do Cédron, para de lá ser levada ao Céu. João, depois da Assunção de Maria, teria voltado a Éfeso. As grandes perseguições tinham começado com o incêndio de Roma (na noite do 18-19 de julho de 64). No ano 68, deu-se a morte de Nero. João é exilado na Ilha de Patmos. É de lá que escreve o Apocalipse que leva o seu nome.

O mistério pascal de Jesus se prolonga na Igreja. A Igreja é apresentada como a “Mulher grávida, que grita entre as dores do parto, atormentada para dar a luz” (Ap 12,2). João, nos últimos capítulos do Apocalipse, não faz alusão à destruição do Templo de Jerusalém. Ele apresenta a Igreja como a Esposa do Cordeiro que vai ao encontro do seu Esposo (Apocalipse, capítulos 21 e 22).

Podemos retomar esta segunda opção, esta segunda data, do ano 65, tentando concretizar a partir do título da revista franciscana “A Terra Santa” de julho-agosto de 1999: “Num belo céu de verão, a Assunção de Maria”:

No dia 15 do mês de agosto (data litúrgica), a Virgem Imaculada, Maria, Mãe de Jesus, foi elevada ao Céu, em corpo e alma, com a idade de 86 anos, em um Beijo de Deus. Como Jesus, na Páscoa do ano 30, com a idade de 36 anos, foi arrebatado ao Céu, em corpo e alma, em um Beijo de Deus. (Lucas fala do arrebatamento de Jesus, da analempsis de Jesus no seu Evangelho e nos Atos dos Apóstolos, como Elias tinha sido arrebatado ao Céu num carro de fogo. Para Lucas, Jesus é o Novo Elias).

Representação da Virgem Maria que se encontra na Capela de Casa Nova de Nazaré. A imagem tem em conta os traços que caracterizam a beleza feminina em Nazaré. É esta Senhora que a gente poderia ter encontrado em Belém, Éfeso e Jerusalém.

Jesus e Maria são as primícias de todos os eleitos que devem também ressuscitar dos mortos, que devem também ser arrebatados ao Céu em um Beijo de Deus. Então, no fim dos tempos, Moisés, com todos os eleitos, será também arrebatado ao Céu em um Beijo de Deus, por ocasião da volta do Senhor Ressuscitado.

Os primeiros cristãos viviam desta esperança da volta do Senhor Jesus. No ano 50, Paulo pregava esta esperança na cidade de Tessalônica. Esta pregação de Paulo chegou até nós particularmente através das suas cartas aos Tessalonicenses (1Ts e 2Ts).

Que Israel, proclamando a Assunção de Moisés ao Céu em um Beijo de Deus, possa também reconhecer o amor de Deus, não somente para com Moisés, mas também para com uma Filha de Sião, a Mãe de Jesus, assunta ao Céu em um Beijo de Deus. Crendo neste amor de Deus para com Maria, para com Moisés e para com todos os homens, podemos pedir a Deus que sejam destruídos os muros de separação que se levantam entre os povos e que sejamos reunidos neste Beijo de Deus, que é a manifestação da Agape e do Eros de Deus. Bento XVI, na sua carta encíclica “Deus Caritas Est”, nos falou oportunamente desta Agape e deste Eros que no amor infinito de Deus se identificam.

O autor, no Monte das Bem-Aventuranças, junto ao lago de Tiberíades.

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